Lembro-me das escadas que eu descia correndo sem tropeçar, procurando um amigo do lado de fora. De quando eu lia todas as palavras de todos os out-doors. Das histórias malucas que eu criava para as brincadeiras durante a tarde e da dificuldade para dormir à noite. Ainda me lembra dessas coisas bobas de moleque, de árvores que caíram há muito tempo.
Fico recordando, olhando as fotos amareladas que foram guardadas dentro de livros velhos - que eu li e reli milhões de vezes. Fico tentando sentir o gosto salgado de uma lágrima recheada no canto da minha boca, daquelas lágrimas quentes e fortes que meus olhos soltavam quando eu, menino, era contrariado.
Pego-me contando estrelas quando elas já não se mostram mais no céu, o jogo é outro: tentar adivinhar quantas estrelas estão escondidas por trás das negras nuvens. Nunca sei se ganho. Quando menino, eu sempre ganhava.
Outro dia abri a velha caixa de gibis. Estavam cheios de poeira. De mau cheiro. Mas quando os abri senti que eles esperavam ansiosos por isso. Com vontade de serem lidos, devorados, como eu, quando menino, fazia. Fazia. Fazia...
E é nesses momentos de lembranças que noto todas as fugas que eu tentei para escapar de tais lembranças, sempre sem sucesso, porque algo dentro de mim procura fielmente todo o prazer que eu sentia no "não-nostálgico" dos momentos que eu criava. E fico assustado quando jogo no meu rosto que já não crio mais como antes. Com tanta criatividade. Com tanta vontade. Empolgação.
E acho que às vezes essas lembranças são necessárias a tal ponto de ouvir aquela música, fazer birra e teimar como uma criança tola. Isso necessariamente é tão agradável?
Naquela época eu pegava uma goiaba na fruteira e me sentava no chão. As goiabas era docinhas...
Hoje me sentei no chão pra ver se eu resgatava algo lá no fundo. Mas agora eu já desisti. Aqueles momentos não voltarão mais e às vezes preciso encarar isso. E é nesse futuro incerto que começo a criar situações "toscas".
Às vezes, é preciso pensar na situação do presente enquanto algo do futuro. Aí você pára e pensa em criar e ser criativo como você nunca fora quando criança.